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Unknown

Saía da escola todos os dias às cinco em ponto. Vinha correndo pela rua. Corria tão depressa que os livros dançavam dentro da mochila. O vento corria ainda mais rápido e passava entre os meus cabelos. O sol ainda brilhava. E eu só corria. As pernas cinzentas, as mãos um tanto sujas de tinta, o uniforme exibindo marcas de suco de uva. Mesmo assim eu não parava. Eu me via às pressas para fazer o que mais gostava.

Chegava em casa com o rosto rosado, o corpo morno, os cabelos embaraçados e um sorriso estampado. Passava vitoriosa pela sala. Jogava a mochila numa cadeira. Corria um pouco mais até chegar no quarto.  Morrendo de vontade de achá-lo, escaneava os quatro cantos do minúsculo cômodo. Nada. Ia  então vasculhar uma velha cesta de palha azulada. Achava uma pilha de gibis, mas as folheava bem rápido. Retirando tudo da cesta numa tentativa desesperada,  achava alguns livros legais: A IIha Perdida, O Menino Maluquinho e Robinson Crusoé. Toda vez era assim.  Só o encontrava com um pouco de esforço. Às vezes o deixava à mostra, só para sentir um pouco de medo de perdê-lo e depois ter o prazer de encontrá-lo.

Éramos inseparáveis : eu e Reinações de Narizinho. Livro grosso, bem ilustrado, cheio de delícias. De tão feliz, apertava-o contra o peito. Corria ainda com ele debaixo dos braços. Corria para a cozinha. Cortava mamão com banana e punha numa tigela.  Daí, deixava a cozinha e ia para o quintal. Pegava uma cadeirinha de balanço e me sentava à sombra de uma mangueira. O vento soprava. As folhas secas caíam no chão formando um longo tapete cor de cinza.

De vez em quando uma manga madura despencava do alto. Um bando de passarinhos, cantarolando, anunciavam o pôr-do-sol. Mas nada disso me incomodava. As aulas já tinham terminado mesmo. Nada importava. Eu ficaria ali até o cair da noite. Eu não estava só. Estava muitíssimo bem acompanhada. Estava com Monteiro Lobato e suas estórias incríveis. Ele aberto no meu colo e eu virando suas páginas com gosto. Virava-as lentamente para não acabar logo. Mesmo não tendo me livrado do uniforme manchado, sabia que era muito mais que uma simples menina. Era Narizinho, Emília, Pedrinho, depois Visconde. Às vezes virava até o Saci. Completamente imersa naqueles momentos, eu me transformava na criação inteira de Monteiro Lobato. Era assim que, à sombra de uma velha mangueira, eu ficava em perfeita sintonia com aquele criador. E isto me fazia a mais complexa e feliz das criaturas.

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