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     Há algum tempo atrás eu costumava atribuir um certo sentido em fazer compras. Chegava em casa cheia de sacolas, jogava tudo em cima do sofá e achava que isso era bom. Sem pensar muito, ia direto para o banho.  Já cheirando a sabonete, vestia tudo outra vez só para ter certeza que tinha feito uma boa escolha.

     Com o passar dos dias, o sentido das compras era transferido para outro objeto. Eu já não pensava tanto nas roupas e sapatos, mas em quando seria a primeira oportunidade para estreiar as novas aquisições. E me imaginava deslumbrante naqueles sapatos novos, brilhantes e, por que não dizer, cheirosos. Era justamente por isto que os sábados à noite faziam o maior sentido e eram perfeitos para os jantares com amigas e também amigas de amigas. Cada uma ia mais pomposa que a outra. Parecia mais um desfile de grife, só que num contexto gastronômico. A Danielle Breton, por exemplo, sempre esbanjou nas cores. Até o menu que ela escolhia tinha que ser colorido. Não sei porque, mas o vinho branco da Marina batia certinho com a cor da lingerie dela. Como sabia? As blusas transparentes e os decotes ousados revelavam muita coisa. E os sapatos da Vera?  Os saltos eram tão finos que davam até medo, medo do vexame. A Vera era de longe a mais magra de nós todas.  Mas ela dava conta do recado direitinho. E olha que ela desfilava pelo menos umas quatro vezes para ir ao banheiro.  O sentido de tudo isto? Não sei dizer ao certo.  Só sei dizer que os jantares a cada segundo sábado do mês eram infalíveis. Entrava ano e saía ano. As amigas e as conhecidas de amigas estavam sempre lá e isto tudo fazia muito sentido.

     Às vezes, nos reuníamos para comer frutos do mar, outras para saborear um menu français. No quinto mês era sempre a vez  dos steaks e assim por diante. A comida era quase inexistente, mas muito elegante e a bebida majestosa. Bem do jeito que as meninas gostavam : saladas espalhafatosas,  petiscos delicados e o metafísico prato principal. De longe, quase não o avistava. Estaria o garçon trazendo um prato vazio? Talvez. O prato principal era do tipo ilhota : uma minúscula porção  de  comida rodeada de linhas tortas e comestíveis por todos os lados. Coisa de gente chique.

     Na hora do prato principal rolava muita conversa. Conversa que às vezes não fazia qualquer sentido, mas dava uma certa impressão de que a comida não era tão pouca assim. Quem falava um pouco menos era a Marina. Por consequente, era ela quem terminava o prato primeiro.  Para não dizer que chegou à sobremesa às pressas, ela sempre pedia mais uma taça de  Champagne Gosset.

     Quando o vinho de sobremesa chegava, o papo já estava no Caribe.  Elas faziam questão de narrar as mais que conhecidas fofocas sobre os cruzeiros que tinham feito pelas Bahamas, Martinica, Jamaica e mais meia dúzia de lugares desconhecidos por algumas de nós. As gargalhadas e risos escancarados ecoavam pelos quatro cantos do restaurante. O engraçado era que o  dessert sempre chegava nestes momentos de loucura vazia e sutil.  Ela, a sobremesa, não era de se botar defeito. O voto unânime tinha eleito o nougat glacé em toda a sua complexidade : amêndoas, pistaches, algumas gotas de Grand Marnier e outras iguarias mais. Uma delícia. Isto sim fez um pouco de sentido.

     Finalmente, já com os vestidos novos meio amarrotados, com os sapatos brilhosos e não mais cheirosos, recebíamos a fatura merecida. Era cada uma por si, como ditava a vida moderna norte americana. De repente, ouvia-se um abre-abre de bolsas.  Dior, Yves Saint Laurent, Gucci, Louis Vuitton. Com a fatura nas mãos, elas sorriam quase todas. Umas sorriam mais do que outras. Vera, que abria uma Chanel, ria escancaradamente. Já a Marisa de Prada, esboçava um sorriso tranquilo. Uma amiga da Vera, aparentando vinte e tantos, me parecia um pouquinho nervosa enquanto retirava seu cartão de crédito de uma Guess com quatro tonalidades de verde. No final todas acabavam sobrevivendo. Algumas muitíssimo bem, outras talvez ficassem de mal com o cartão de crédito por pelo menos até o próximo encontro.

     Na despedida, beijocas vinham e iam, e os celulares dançavam nas mãos delas.  A Verinha exibia suas unhas vermelhas e lustrosas enquanto chamava um táxi via Smartphone. « Alô, um táxi para Dunbar por favor », dizia a Marina. Na saída houve até tumulto na porta do restaurante.  E para transportar os cinco quilos de lantejoulas foi preciso seis táxis.

     No dia seguinte, lá pelas dez e quinze da manhã lá estavam elas de roupão de seda, cabelos cuidadosamente inseridos em máquinas térmicas e peles lambuzadas de cremes ultra tecnológicos. Estavam todas ligando umas para as outras para relembrar o passado imediato. A Vera disse para a Danielle que tinha adorado aqueles Dolce Gabanna vermelhos que ela tinha nos pés. A amiga da Helô perguntou para uma outra amiga o nome da loja onde ela tinha comprado aquele tubinho by Valentino. A Marina comentou com a Helô que a Prada estava com preços em conta para o fim do ano. Nada acima de três mil dólares.

     Os sapatos, os vestidos, a cor das unhas, os brincos, a versatilidade das bolsas, a tonalidade dos batons, tudo tinha sido notado e comentado, à exceção de uma coisa que, para elas,  talvez não fizesse muito sentido : os cientistas tinham previsto um grande terremoto em Vancouver naquele sábado à noite, mas felizmente acabou não acontecendo.

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10 pensamentos em “O sentido das coisas

  1. Sempre gostei dos seus textos. E essa crônica está muito boa. Parabéns! Uma crítica ao consumismo exacerbado e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre os valores humanos e o sentido das nossas ações.

  2. Nancy, adorei, bela reflexão sobre o qto tentamos preencher o nosso “vazio” com as efêmeras e tentadoras aquisições que muitas vezes só tomam espaço no guarda-roupa. Bjs

  3. Nancy, amei esta crônica. Muito interessante e pertinente sobre a falta real de atenção com o que realmente é relevante, e muitas vezes estamos ligadas em coisas tão frívolas.
    um abraço com saudades!
    Guida

  4. É bem isto. As roupas e Cia sao é so um exemplo da necessidade de se buscar um sentido e direçao na vida. Acredito que o vazio é inevitavel, mas a forma de preenchê-lo é uma questao de escolha.

  5. Nancy, Parabéns pela crônica que se encaixa perfeitamente com o momento que estamos vivendo agora coma época natalina. Muitas compras e pouca reflexão para o que é essencial.

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