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 YOGA

Hot yoga. Fonte: http://www.google.com

Hot yoga. Fonte: http://www.google.com

Ela estava calma, serena mesmo.  Meio que debruçada na paredinha de sua varanda, observava a chuva forte cair. « Mais um domingo cinzento », pensava ela em tom de desânimo. Ainda debruçada, seus pensamentos vagueavam, dançavam entre os pingos da chuva e se dissipavam no ar frio e húmido de Vancouver.

A chuva que já caía desde quarta-feira à noite tinha até aumentado. Os pingos eram agora um tanto grossos e persistentes.

Depois de um bom tempo de meditação « temporal », resolve deixar a varanda. Se dirige até a sala e se esparrama na namoradeira. Lá fica sem namorar. Só sonhando acordada, desejando alguma praia ensolarada do sul. E nem precisava ser o Caribe. A Califórnia servia.

« Clic ».  «  clic, clic e clic ». A TV mal tinha sido chamada em cena e ela já mudava de canal sem parar.  Na quarta tentativa, ela encontrou algo intrigante. Um documentário sobre as criaturas do mar profundo : seres medonhos, criaturas bizarras e  o  peixe blob ou psychrolutes microporos, como chamam os cientistas.  Dizem que o peixe blob  esta para  a gelatina sem sabor assim como  a mulher  moderna esta para  o cartão de crédito. Que ser mais bizarro! Não  seria capaz de explicar ao certo se o ato de sua criação seria caso de imaginação em excesso ou falta de inspiração. Daí juntando chuva com peixe blob… hum! Acho melhor nem continuar.

Mas não era nenhuma estória sobre sobre a chuva, muito menos sobre o peixe blob que queria contar. A coisa era mais profunda e séria do que qualquer tempestade feia ou gelatina viscosa das profundezas do mar. Ela tinha dito para si mesma que iria sair de casa, do trabalho, da cidade, do país, e se brincar, até do mapa. Queria viajar. Como não seria de imediato, sairia por poucas horas naquela tarde de domingo  frio e molhado.

Arrumou a bolsa. Pôs toalha, blusinha, short, sandálias, sabonete, champoo, creme para as mãos, enfim, tudo  o que precisava para ir à academia. Pela quarta vez, tinha  decidido retomar as aulas de yoga.

Chegou cedo. Se trocou, encheu a garrafa de água e se dirigiu até a sala de                       « Hot yoga ». A sala estava bem quentinha.  Foi difícil achar um espaço. Também pudera. Num domingo chuvoso a coisa não poderia ser outra : ela e mais uma centena de criaturas  insatisfeitas com a chuva ou com o peixe blob  tiveram a mesma idéia. E entre chuva, peixe blob  e yoga,  quem não escolheria yoga, hein?

Pois é. No começo tudo ia bem. Estica daqui, estira dali. Que paz de espírito.  Depois dos primeiros quinze minutos a coisa começou a ficar difícil.  Esticar a perna para trás, os braços para a frente, respirar e tentar não pensar mais no peixe blob . Tudo isto  ao mesmo tempo. Sem contar que a sala estava ficando cada vez mais quente. Que duro era esticar sem parar de respirar. Ou manter o corpo eretíssimo a cada vez que a imagem do peixe blob  vinha  na cabeça.

Meia hora tinha se passado. Ela nem sequer tinha desmaiado. Que vitória! Duas outras mulheres já tinham pedido permissão para deixar a sala.  Deve ter sido culpa do peixe blob, com certeza.

Os movimentos começaram a ficar mais rápidos. Senta, estica a perna, levanta. Segura os dedões do pé, põe a cabeça no joelho, respira.

Ela olha para o lado. Vê duas mulheres tão esticadíssimas e concentradíssimas que deu até inveja. Não! Inveja e yoga não combinam. Depois, a moral da yoga não  é tanto a forma física, mas a mental. Quer dizer, esticar a mente esticando o corpo. Disciplina. Coisas assim.

Senta, levanta, estica a perna, eleva os braços, toca o teto, respira. Uma Suadeira só. Ela se lembrou da chuva, da varanda e do blob. Quis desanimar. Mas quando olhou de novo para o lado e viu as duas garotas ainda super concentradas, ela meditou. A lembrança do céu cinzento e do peixe blob foram enfraquecendo aos poucos. O segredo de tudo estava bem ali. Ela sabia que tinha o total controle. Só bastava se concentrar mais um pouco. Ela decidiu que iria tentar.  Estirou bem o corpo até alcançar a mente. E lá se foi esticando tudo : as idéias, o medo, a lembrança do celular roubado do armário da  academia e a vontade de comer um saco inteirinho de bombons. Ela respirou fundo. Daí esticou mais um pouquinho. Suou muito. A chuva devastadora e o peixe blob não eram, nem de perto,  um problema. E concluiu : eles não atormentariam mais a sua cabeça. Muito menos numa tarde de domingo. Namastê!

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