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Enquanto a chuva fria do norte cai  lá fora, sinto uma palpitação aqui dentro. É pontada forte, como batucada de samba, balançar de pandeiros ou toque de zabumba.  É emoção concentrada feito suco de maracujá. Forte, como gosto de manga madura. Inconfundível, tal cheiro de feijão verde cozinhando em panela de barro.

Sabiá cantando, bem-te-vi voando. Pôr-do-sol alaranjando. Gente falando alto, gesticulando. Crianças correndo.  Poeira levantando. Suco de umbu cheirando. Palmeiras balançando. Samba agitando, frutas cítricas  refrescando. É emoção nostálgica. É saudade do Brasil, bela moça tropicália.

Sinto falta do Brasil, mas não de um Brasil qualquer. Tenho saudades do Brasil de Monteiro Lobato e de seus sacis-pêrêrês. Da terra de Caetano e de Gil. Da bossa brasileiríssima de Tom e de Vinícius. Tom que abria a janela, via o Corcovado e achava lindo. Tenho saudades da  garoa paulista ostentada na voz de Caetano. Morro de saudades do Brasil agreste e sensual de Jorge Amado. Mangue seco. Adoro o Brasil-José  de Drummond de Andrade. O Brasil que persevera na luta, mesmo quando tem uma pedra no meio do caminho.

Ainda me emociono com a manga rosa de Alceu Valença, o frevo irreverente de Elba, o exotismo do carimbó, a cidade sangue-quente-maravilha-mutante de Fernanda Abreu.  Ainda bem viva, persiste esta marca verde e amarela e cor de goiaba que pulsa forte, profundo.

Castanha de caju. Chapéu de couro. Carne seca. Feijoada. Sertão. Águas de março. A lenda do milho. Caipora. Iracema. O cortiço. O bafafá na feira.  Farinha de mandioca.  Balão multicor. Brasileiro é feito de tudo isto.  Misto de raça, cor e jogo de cintura.

Burburinho na rua. Toque de viola. Choro de sanfona. Luiz Gonzaga. Asa branca. Milho assado. É assim que a gente cresce e vira brasileiro. Brasilidade distante esfria, mas não cessa. Sem demora, a alegria do samba, a nostalgia da bossa e do chorinho, do vuco-vuco do frevo e mesmo a lembrança exótica do gosto forte da graviola reafirmam: somos  tudo isto; somos brasileiros.

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6 pensamentos em “Brasileiro é isto

  1. Parabens, Nancy… sempre tão sensivel e linda com as palavras que dançam entrelaçadas pelos seus dedos e pensamentos !!! Que seu coração continue aquecido pelas coisas que alimentam a alma. Namastê !! bjs

  2. A cada verso lido um arrepio brotado do fundo d’alma, de quem, como vc, partira para terras distantes! Nancy, só mesmo quem está longe das suas raízes consegue emanar tão profunda poesia!! Brasil mostra a tua cara, quero ver quem paga e consegue ser assim… Essa é a nossa cara!! Parabens e força.. pq gerreira vc já é!! bjs

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